Domingo, Novembro 22, 2009

Lembrar Jorge Ferreira - o imperativo de tomar partido

Conheci Jorge Ferreira há muitos anos, era ele estudante de Direito e dirigente da Juventude Centrista. Nunca tendo sido propriamente amigos (deve dizer-se aliás que ele nunca teve tantos como os que apareceram agora) mantivémos sempre, ao longo dos anos, uma relação cordial, como as que existem entre pessoas que reciprocamente se apreciam e respeitam (julgo poder dizer que era recíproco sem abusar em nada das reiteradas manifestações de estima e consideração que me foi dirigindo, ao longo do tempo). Os últimos encontros pessoais deveram-se aos acasos da profissão, e os últimos contactos foram por via da blogação. Posso testemunhar com certeza segura que não era homem para este lodaçal em que se transformou a nossa vida pública. Por isso, podendo ter sido tudo, bastando-lhe ajeitar-se e conformar-se, acabou por ficar à margem, desistindo efectivamente de uma carreira política que como "carreira" não lhe interessava e só lhe repugnava.
Neste momento em que a morte lhe veio dar aqueles transitórios e piedosos instantes de atenção que concede àqueles a quem tudo tira, decidi republicar a troca de impressões que os dois elaborámos a 15 de Novembro de 2008, numa altura em que a doença já o atacava, sem o dobrar.
O inconformismo, a combatividade, a coragem, sem concessões à resignação e ao fatalismo, mantinham-se intactas neste seu manifesto: o imperativo de tomar partido.
Presto assim a minha homenagem ao Jorge Ferreira, chamando a atenção para o que ele efectivamente disse e pensava - e que tende a ficar esquecido por entre homenagens rituais e de circunstância.
Quebro assim, de novo, o silêncio do "Sexo dos Anjos". Senti-me obrigado a expressar um apelo a todos os porugueses para que não deixem de assinalar a data maior da Restauração da Independência, e senti-me agora em dívida para com a memória de Jorge Ferreira.
Regresso já ao meu silêncio.

1 - Num dos seus poemas, António Manuel Couto Viana fala do "pudor brando de tomar partido" que assolaria a nossa terra... Tem sentido isso? Não tem nada que ver com o seu blogue?
- Não é bem isso que sinto, embora perceba a que se refere António Manuel Couto Viana. O "pudor brando" é assim uma espécie de torpor de indiferença, que alguns tentam salvar qualificando-o de sageza, mas que atentos os resultados práticos, me parece uma sub-espécie da indolência mental, ancestralmente estimulada por pseudo-elites contemporizadoras e chico-espertas. As nossas elites preferem comer fast ideas, do que dar-se a muitas trabalheiras de pensamento. Quanto à acção, nem falar… O que sinto mais e é sobretudo contra isto que dirijo o Tomar Partido é a cultura medíocre de desancar políticos, futebolistas, manequins nos cafés e andar às palmadinhas nas costas dos mesmos, mal se tem uma oportunidade ou uma câmara de televisão à mão. Isto é a cobardia pura. Bem sei que somos todos primos uns dos outros e que nos encontramos nas mesmas ruas, nas mesmas praças. Esse é o principal factor que leva os portugueses a tomar um partido cúmplice, porque inconsequente. Sucede que numa época de cavalgada dos relativismos, dos permissivismos e da ausência de valores, acho que a atitude de tomar partido é ainda mais necessária. Mesmo que nos custe solidões, pobreza ou desencanto. É como se o círculo mental coimbrão tivesse tomado conta do país. Um professor de Coimbra expõe a tese a favor, a tese contra e depois constrói uma tese própria, que é a “eclética”, que traz um bocadinho de cada uma e assim vamos ficando de bem com Deus e com o Diabo.
2 - Há muito que se convencionou chamar à imprensa o quarto poder. Poderá a internet vir a ser o quinto?
- Aqui para nós, que ninguém nos ouve…, eu creio bem que já é. Mas é um poder muito mais vasto ou devastador, se se preferir, do que era o poder que a imprensa recebeu como o quarto. O quarto poder era essencialmente um anti-poder político. A imprensa como refúgio de denúncia, como respiradouro das democracias corrompidas. O poder que a Internet é, é muito mais aliciante e perigoso. É uma virtualidade que tende a tornar-se totalitária se não tivermos cuidado. Orwell, Orwell…

3 - O Jorge Ferreira tem já uma longa experiência política. Observando hoje a cena política portuguesa, parece-lhe que há um caminho à direita? Ou o sistema partidário está fechado, e não é possível romper o círculo?
- O sistema político está claramente fechado. Todas as portas estão devidamente bloqueadas pelos partidos parlamentares. Eles fazem as leis e os orçamentos que impedem novos alvarás partidários. Eles fazem, todos, do Bloco ao CDS, embora cada um à sua maneira, os negócios do regime, que não começaram agora com os escândalos recentes. Eu próprio, enquanto deputado, tive a oportunidade e o poder de denunciar alguns, numa altura em que ainda não era moda e sei bem o que passei. Ora, o caminho à direita eu tenho a certeza que há, mas esse caminho político e ideológico esbarra nos vários cadeados do sistema e no pudor brando do eleitorado, que não está disposto a arriscar numa mudançazinha por mínima que seja. Mas também acredito que isto não é eterno, e que há que continuar o combate, nem que seja apenas nos blogues… as mudanças surpreendem justamente porque não se prevêem.
4 - A blogosfera complementa os meios de comunicação social tradicionais, substitui-os, ou confronta-os? Em que medida se pode dizer que os blogues são a voz dos que não têm voz em tais meios?
- A blogosfera faz isso tudo. Complementa-os, porque proporciona um tipo de comunicação que não se encontra nos meios tradicionais. Substitui-os, porque hoje, talvez infelizmente para os meios convencionais, há informação censurada nesses meios que nos blogues não há como impedir. E confronta-os, na exacta medida em que os complementa e substitui. Creio, aliás, que os meios de comunicação convencionais ainda não perceberam ou não conseguiram reagir completamente a esta nova realidade. Eu diria, felizmente hoje há blogues. Basta ver como teria sido muito mais calma a vida deste desgoverno socialista sem eles. Pela primeira vez assistimos a políticos a porem processos judiciais a blogues: Sócrates ao Do Portugal Profundo, o ministério das Finanças ao Jumento. Como diria o humorista, vai muito meduncho por aí…
5 - Um amigo dizia-me que em Portugal só há lugar para um partido, o país só dá para alimentar um partido; por isso vivemos tendencialmente sempre em partido único, que por vezes assume a aparência de um rotativismo alternadeiro... Se o Estado Novo funcionou com um, e a Primeira República funcionava com outro, o rotativismo monárquico funcionava com dois que na realidade se combinavam perfeitamente para rodar de vez em quando os lugares de topo sem afectar o essencial (não tirar a gamela a ninguém), e esta república tende a organizar-se de forma idência, com o PS/PSD, novamente o um em dois. O que se lhe oferece comentar sobre a tese?
- Eu sempre tentei refutar esse fatalismo, que não é novo. Bem como aquele fatalismo iberista, que deve ser a base de raciocínio do ministro iberista Mário Lino, que nos diz que um país que apenas consegue obter um PIB como o da Catalunha, não tem o direito nem as condições para aspirar a uma soberania no mundo de hoje. Sempre militei nas margens do sistema e tive a alegria de, em certas circunstancias, sentir que é possível dar luta. Dar luta, dar sempre luta, é isso que o sistema não gosta, porque se é certo que é guloso, também é verdade que está anafado e preguiçoso. A alternativa é fechar o país ou desistir. Não vou por aí.
6 - Fazer o "Tomar Partido" tem sido um exercício estimulante, uma perda de tempo, ou um empreendimento de sucesso?
- Tem sido, sobretudo, um imenso gozo da minha liberdade. Escrever o que quero, quando quero e quando me apetece. Isto não tem preço. De são e de jornalista, todos temos um pouco. Ora, algum dia, caro Manuel, pensou ser tão fácil e tão barato ter um jornal só para si?... Na medida em que é resultado da minha liberdade é muito estimulante. Agora sucesso, não lhe sei responder. Devolvo a pergunta: o que é o sucesso de um blogue?

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

1º de Dezembro

Convidamos todos os portugueses a estarem presentes no acto público a realizar às 16 horas do Dia 1º de Dezembro em frente ao Monumento aos Restauradores em Lisboa.
Por Portugal, por uma nova Restauração!

Sexta-feira, Julho 31, 2009

Adeus

Foi intenção primordial deste blogue criar pontos de partida. Neste momento em que atingiu o fim, pareceu-me oportuno recordar essa meta.
Aos amigos e a todos os que tiveram a bondade de passar por aqui, fica o meu agradecimento público.

Poderemos ser democratas?

(inserimos hoje, último dia de publicação deste blogue, mais um artigo do nosso desconhecido colaborador José Silva. Aqui fica para apreciação geral).

Quando nos apercebemos do que tem sido este regime, desde há 35 anos, e que ele tem por título – democrático – querendo manter uma consciência sã, forçosamente temos de dizer – se isto é uma democracia, então eu não sou democrata! Melhor é que pensemos: Isto não é uma verdadeira democracia, e eu é que sou verdadeiramente democrata!
Como assim? O dicionário de Figueiredo, por exemplo, dá várias definições possíveis para democracia, a saber: Soberania popular; Governo do povo; Influência do povo na governação pública (...). Já a wikipédia diz que Democracia é um regime de governo onde o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), directa ou indirectamente, por meio de representantes eleitos — forma mais usual. Uma democracia pode existir num sistema presidencialista ou parlamentarista, republicano ou monárquico.
Algures no meio de todas estas definições genéricas eu, e acho que todos vós, podemos encontrar espaço para a nossa consciência política dentro da palavra democracia. Ninguém no seu perfeito juízo poderia hoje em dia excluir toda a participação da população na vida pública – semelhante regime seria, quer no plano interno, quer no internacional, insustentável – para além de que não seria possível de implantar! Qualquer revolução ou golpe de Estado, ou o que lhe quisessem chamar que não leve o nome de democrático, atrai em meia dúzia de dias um porta aviões americano na barra do Tejo com a bênção da restante União Europeia e da ONU!
Deste modo, e embora não possa em consciência aceitar a ideia de soberania popular, já me parece aceitável, a ideia da influência do povo na governação pública, desde que sejam clarificados os moldes em que se processa a dita influência. À luz da wikipédia, poderá o povo tomar importantes decisões políticas, o que não quer dizer que ele as tome todas!
A partir das mesmas definições poderemos igualmente concluir que este regime não é verdadeiramente democrático.
- Em primeiro lugar porque faz subordinar todo o funcionamento da representatividade política, à constituição de partidos. Ora, o Art.º 8 da Lei dos partidos afirma: Não são consentidos partidos políticos armados nem de tipo militar, militarizados ou paramilitares, nem partidos racistas ou que perfilhem a ideologia fascista. Não especificando o que significa para ele fascista, o legislador abre o campo para que se considere fascista toda a oposição ao regime. Portanto, este artigo, na prática é o mesmo que dizer – só se permitem partidos da situação – e é o que temos.
Já o Art.º 9 diz: Não podem constituir-se partidos políticos que, pela sua designação ou pelos seus objectivos programáticos, tenham índole ou âmbito regional. Sendo que algumas das nossas regiões detêm especificidades e problemas, porque não permitir a sua defesa em plenário?
- Depois, uma vez que são permitidas tacitamente todas as formas obscuras de financiamento partidário, temos um regime em que as campanhas eleitorais envolvem exorbitâncias, o que não permite ao cidadão comum, nem às actividades económicas menos lucrativas, a possibilidade de verem ouvidas as suas vozes. No fundo temos um circuito fechado em que os partidos uma vez eleitos promovem obras inúteis, elaboradas por grandes construtoras, que por sua vez os financiam. Quem perde é o país.
- Finalmente, e como resultado destas duas premissas, grande parte da população desistiu de exercer o seu direito de voto, o que só por si poria em causa a legitimidade democrática. Eleitos por uma ínfima maioria, os representantes arrogam-se no direito de alienar partes da soberania nacional, o que para além de ser moralmente reprovável, é por pouco que isso me interesse, inconstitucional. Diz a nossa Constituição, no Art. 5 - O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da rectificação de fronteiras. Ora, sem qualquer consentimento da população, os sucessivos governos alienaram o direito de cunhar moeda, e de com base nela definir uma economia, o controle das fronteiras, o direito à pesca (ou à não pesca) nas nossas águas territoriais, e por aí fora. Tudo isto são direitos de soberania.
Resumindo - já vimos que podemos ser democratas. Já vimos que este regime não é democrata. Falta ver porque devemos ser democratas cristãos.
Devemo-lo ser porque tão simplesmente o nosso Papa nos abre esse caminho. Ao afirmar: «A lei natural se converte deste modo em garantia oferecida a cada um para viver livremente e ser respeitado em sua dignidade, ficando livre de toda manipulação ideológica e de todo arbítrio ou abuso do mais forte.» (...) «Ninguém pode se eximir desta exigência – continuou advertindo o Papa. Se por um trágico obscurecimento da consciência colectiva, o cepticismo e o relativismo ético chegassem a cancelar os princípios fundamentais da lei moral natural, a própria ordem democrática ficaria radicalmente ferida em seus fundamentos». (http://www.zenit.org/article-16342?l=portuguese). Para Bento XVI e para nós, como católicos, o direito natural é a base da verdadeira democracia e a única garantia da integridade da população.
Compreendemos porém que não cabe à Igreja a criação ou implantação de um regime político. A Igreja tem que se manter acima de todos os regimes, para que lhes sobreviva, como por milhares de anos o tem feito. O papel de construir um regime à luz dos princípios que ela nos indica (cristianismo e democracia), pondo de lado pequenas quezílias e idiossincrasias, cabe-nos a nós! Ao fim ao cabo, e por muito que a palavra democracia tenha hoje uma conotação negativa, será melhor abdicar dessa conotação ou aturar o Sócrates?

JOSÉ SILVA

Sábado, Julho 25, 2009

HERMÍNIO DA PALMA INÁCIO - Ladrão e Homicida na Forma Tentada

(em breve visita ao lar estive a abrir o correio, e lá encontrei esta carta, da autoria do Sr. General Fernando Paula Vicente, a propósito do recente desaparecimento de um conhecido figurão, digno ornamento deste regime que nos rege)

Faleceu em Lisboa, no passado dia 14 de Julho, Hermínio da Palma Inácio, glorificado pela opinião publicada como um revolucionário artífice da liberdade a quem a democracia portuguesa muito deve. Estamos em democracia e, por isso, toda a gente tem direito à sua opinião, incluindo eu próprio, cidadão anónimo e contribuinte fiscal que nunca roubou o Estado, antes pelo contrário, pelo Estado foi roubado. Só que a minha opinião sobre essa figura sinistra é completamente divergente da publicada.
Antes de prosseguir, quero deixar claro que não conheci Palma Inácio pessoalmente, embora tenha lido, senão tudo, seguramente quase tudo o que sobre a sua personagem foi publicado. Adicionalmente, recolhi de quem o conheceu muito bem, informação insuspeita sobre o seu perfil ético. Essa informação foi-me dada por um General Piloto-Aviador ao tempo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, e a conversa teve lugar no seu gabinete de trabalho, onde eu procurava despacho para assuntos da sua exclusiva competência, sendo que um deles era a nomeação de um militar para um cargo no estrangeiro. Na pré-selecção feita pelos serviços competentes, estavam nomeáveis três militares que eu conhecia muito bem. Pediu o meu parecer pessoal e eu dei-lho, recomendando um deles que tinha uma folha de serviço exemplar, era reconhecidamente muito competente e pautava o seu comportamento por um elevado padrão ético. O Senhor General ouviu atentamente os meus argumentos e, para minha surpresa, ficou em silêncio por um longo momento. De seguida levantou-se da sua secretária e convidou-me a sentar num recanto do gabinete onde estavam dois sofás e uma mesa de apoio. “Senta-te aqui, tu és muito novo e eu quero contar-te uma história de como gente “muito competente” pode, ao mesmo tempo, ser extremamente perigosa”. E contou-me ali a seguinte história de Hermínio da Palma Inácio.
Esse Senhor General era ao tempo capitão aviador na Base Aérea de Sintra onde Palma Inácio, com o posto de 1º Cabo, tinha, num passado recente, sido mecânico na “linha da frente”, isto é, tinha a responsabilidade da pequena manutenção e reabastecimento dos aviões, portanto da respectiva prontidão imediata para voo, funções que desempenhara de forma comprovadamente muito competente e onde conquistara a estima de todos os pilotos. Depois, saiu da Força Aérea para exercer funções semelhantes no meio civil. Em 1947, já depois da sua saída, aconteceu na Base Aérea o que parecia impensável. Um dos pilotos, ao passar a obrigatória inspecção exterior a um avião no qual iria voar de seguida, notou que os cabos de comando dos lemes do avião (cabos de aço compostos por um enrolamento de fios de aço de menor secção) estavam em mau estado, parecendo meio cortados. Dado o alarme e após pormenorizada análise, confirmou-se terem os ditos cabos sido, não cortados como a imprensa actualmente relatou, mas intencionalmente serrados o suficiente para, com o avião ainda em terra, transmitir movimento aos lemes – e iludir o piloto - mas para inevitavelmente quebrar quando sujeitos à elevada pressão aerodinâmica do voo, deixando o avião no ar sem qualquer possibilidade de controlo, provocando a sua inevitável queda e destruição e a mais que provável morte de pilotos. E constatou-se ainda que tinham sido serrados os cabos de comando de todos os aviões, num acto de sabotagem total da frota, cuja autoria se confirmou ser de Palma Inácio que foi preso pela PIDE. O Senhor General alertava-me desse modo para o facto, aliás bem conhecido, de que uma intenção altamente malévola pode ser – e frequentemente é - convenientemente camuflada com um comportamento profissional irrepreensível.
Certamente a atestar também o seu apreço pelo elevado perfil profissional de Palma Inácio, o então Major Humberto Delgado, aproveitanto um voo de treino chegara mesmo a levá-lo em passeio aéreo, apesar da grande diferença de posições (1).
Ao elevado e generalizado apreço que a Força Aérea Portuguesa lhe demonstrou – depois de lhe ter proporcionado uma formação técnica de grande valia profissional no quadro de um mais que deprimido mercado de trabalho em 1947, Palma Inácio retribuiu com a preparação da destruição material da frota de aviões de treino, essencial ao funcionamento e crescimento da Força Aérea, e com a frieza assassina de quem não hesitou em condenar à morte os seus camaradas pilotos, aqueles mesmos que tanta consideração lhe dispensaram.
À semelhança do que fez a Acção Revolucionária Armada (Partido Comunista Português) em 8 de Março de 1971 na Base Aérea de Tancos onde, durante a noite, destruiu 28 aviões e helicópteros guardados num hangar, evitando deliberadamente atingir pessoas, Palma Inácio podia simplesmente ter cortado os cabos de comando ou podia ter feito explodir os aviões. Mas isso não lhe bastou: quis também assassinar os pilotos!
Foi responsável por algumas imbecilidades como, por exemplo, a tentativa de ocupação da cidade da Covilhã, mas o imaginário nacional relembra-o essencialmente pelo desvio, em 11 de Novembro de 1961, de um avião Super-Constellation da TAP de onde largou sobre Lisboa panfletos contra o regime de Salazar, e também pelo, até recentemente, maior roubo bancário em Portugal quando, em 1967, liderou o assalto à dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, de onde roubou vinte e nove mil contos, uma elevadíssima quantia para a época. Preocupado como dizia estar com a pobreza do País, consequência da “ditadura” do Estado Novo, podia ter copiado do Zé do Telhado o gesto simbólico de uma ostensiva distribuição pelos pobres, o que seguramente teria envergonhado o Regime. Mas não. Palma Inácio não era um altruísta. Levou o dinheiro para Paris, para o banquete da fauna desertora e são conhecidas as desavenças que a farta refeição provocou, porque o objectivo não era envergonhar o Regime, era encher a gamela.
Como terá dito Mário Soares (2), Palma Inácio “Era um homem de grande imaginação revolucionária. Não era propriamente um político…”. Tem toda a razão e por isso os seus actos não põem ser considerados “políticos”. De facto, durante todo o período da “ditadura” não se lhe conhece filiação partidária. Também se lhe não conhece qualquer projecto alternativo de governação que pudesse legitimar uma oposição ao Regime, como foi o caso do próprio Mário Soares e de Álvaro Cunhal. Foi só depois da Revolução de Abril que, a fazer fé na imprensa da época, Mário Soares o convenceu a filiar-se no Partido Socialista e, de seguida, lhe ofereceu, de mão beijada e a troco sabe-se lá de quê, o lugar de Director-Geral do Ministério do Trabalho, função para a qual Palma Inácio não podia ter a menor qualificação. Favores de amigos.
A propósito da morte de Palma Inácio e a fazer também fé na imprensa (3), Almeida Santos, Presidente do Partido Socialista, declarou que Palma Inácio foi “…um exemplar patriota” e terá sido por este mesmo critério que Jorge Sampaio, em Maio de 2000, quando exercia as funções de Presidente da República, o agraciou com o elevado grau da Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Perante tudo isto, ocorre-me perguntar se eu - que não fui, não sou nem nunca serei socialista e que, tal como Palma Inácio não gostava de Salazar, eu não gosto do Senhor Primeiro-Ministro José Sócrates e do seu governo, como não gosto da ditadura de partidos que ultimamente vem governando Portugal – decidir assaltar uma qualquer dependência do Banco de Portugal e roubar pelo menos uns cinco milhões de euros, o que me dava um jeitão para ajudar a educar bem os netos e deixar-lhe algum conforto material que a minha reforma me não vai permitir; se eu que, tal como Palma Inácio tinha, tenho acesso fácil a qualquer Base Aérea nacional, decidir sabotar e destruir o avião Falcon em que o Governo se passeia por esse mundo à nossa custa e atentar contra a vida de uns pilotos, (prometo que, esse caso, eu que, contrariamente a Palma Inácio, sou um democrata, terei o cuidado de não atentar contra a vida do Senhor Primeiro-Ministro porque ele foi democraticamente eleito, ainda que por um povo meio distraído e imbecilizado pelo futebol e pelas telenovelas), será que o Partido Socialista me confere a distinção de me considerar um “exemplar patriota”, me arranja um lugar bem remunerado no conselho de administração de um desses Institutos Públicos para onde é desviado o dinheiro dos contribuintes para aí ser gerido por “exemplares patriotas”, como na opinião publicada se pretende fazer crer que Palma Inácio foi, e depois - a cereja no cimo do bolo – me confere aí um grau qualquer da Ordem da Liberdade (não tem que ser a Grã-Cruz)?
A verdade, a minha e a de muitos outros portugueses da minha geração que lhe conhecem o perfil, é que Palma Inácio não prestou qualquer serviço ao País, por muito que isso doa aos desertores que tudo torcem para justificar a sua deserção, a sua traição à Pátria. Posto em termos simples e claros e entre outras coisas:
- Palma Inácio foi um mero ladrão – procurei mas não consegui encontrar outro adjectivo para qualificar uma pessoa que assalta um banco e rouba vinte e nove mil contos - com os quais muitos se devem ter banqueteado e, porventura, se sentem agora na obrigação de o glorificar em termos nacionais.
- Palma Inácio traíu a Força Aérea, tentou o homicídio dos mesmos pilotos com quem lidou diariamente e que lhe dispensaram uma consideração que não merecia, constituindo-se homicida na forma tentada.
- Mais tarde, já no Brasil, aproximou-se do Senhor General Humberto Delgado (o mesmo que lhe dispensou a consideração pessoal de o levar a voar) tornou-se membro do MNI e na hora certa traiu-o também, o que obrigou Humberto Delgado a “ …expulsá-lo «por traição…” (4)
Ora… façam-me o favor de parar com o sistemático branquear da História. A traição não é, nem nunca será, convertível em virtude. Haja vergonha!

Espanha, 20 de Julho de 2009
Fernando Paula Vicente
Major-General da Força Aérea Portuguesa (Ref.)

1 - “Humberto Delgado – Biografia do General Sem Medo”, pág. 905
2 - “Diário de Notícias”, 15 de Julho de 2009, pág. 8
3 - “Diário de Notícias”, 15 de Julho de 2009, pág. 8
4 - “Humberto Delgado – Biografia do General Sem Medo”, pág. 905

Sábado, Julho 18, 2009

Telegrama

Vou estar uns dias longe de computadores. Quando puder darei sinais de vida.

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Admirable!

«Le mauvais goût, c’est de confondre la mode, qui ne vit que de changements, avec le beau durable
(Stendhal)

Terça-feira, Julho 14, 2009

O problema da direita

(com o devido respeito, transcrevo o artigo de Jaime Nogueira Pinto, hoje publicado no ionline) .

Os valores e princípios tradicionais da direita estão descaracterizados na oferta política portuguesa. É necessária a sua refundação.

Se esquerda e direita significam, para além de lugares do espaço político, conteúdos substanciais, valores, princípios e projectos, tais conteúdos podem ser exercidos e desenvolvidos em diferentes formas e regimes. Em modelos autoritários ou liberais, totalitários ou democráticos.
Em Portugal, a Primeira República foi o tempo de governo dos democráticos de Afonso Costa e António Maria da Silva. Uma esquerda republicana, anti-religiosa, anticonservadora, que se impôs pela força da rua e nas suas formas superiores de luta - a Carbonária, a Formiga Branca, o povo unido! O eleitorado era 7% da população.
A reacção a esta violência foi violenta - as incursões de Couceiro, Sidónio Pais, a Monarquia do Norte; em 1926, a ditadura militar; e depois de 1933 o Estado Novo autoritário de Salazar. Este impôs os princípios da direita - nacionalistas, religiosos, conservadores - num sistema apartidário. O que depois de 1945 era um modelo exótico para a Europa ocidental.
É este o problema da direita portuguesa - os seus valores e princípios foram instituídos e defendidos no Estado Novo, o que os tornou execrados e indesejados no pós-25 de Abril.
E justificou a sua interdição na democracia vigiada pela autoridade instituinte do MFA e do seu pacto com os partidos.
Com excepção da dinâmica do PSD do primeiro cavaquismo e do CDS nacional populista da segunda metade dos anos 90, tais princípios nunca foram assumidos (o que não quer dizer que não servissem às vezes de bandeira de conveniência) por nenhum partido ou programa político. E continuam a não ser.
Esta ausência descaracterizou ideologicamente a oferta política e o eleitorado de direita vota, à mercê das lideranças, das situações e conveniências, no PSD, no CDS e até no PS. No PSD do primeiro cavaquismo, no CDS de Monteiro de 1995 e em Sócrates na dêbacle do PSD de Santana.
Tem sido assim e assim será, enquanto não houver uma força política, existente ou nova, que adopte esses valores e princípios identitários da direita. Que, depois do fim do comunismo e da conversão dos socialistas ao mercado, já não pode ser o liberalismo económico.
A direita ideológica tem a ver com a ideia de valores de orientação permanente, à volta da nação, da religião, da família, de uma certa ordem natural, que admite mudanças, mas rejeita utopias e sobretudo a absolutização do relativo.
E esses valores podem ser defendidos no quadro democrático. Não fizeram outra coisa nos últimos trinta anos os grandes partidos da direita da Europa e dos Estados Unidos.

"O Sexo dos Anjos" na blogosfera

A decisão de não continuar "O Sexo dos Anjos", após os seis anos de publicação que se encontram documentados nos arquivos, foi notada na blogosfera: foi o "Jansenista", foi O Insurgente, foi o Nova Frente, foi o Retorno. (Alguns outros mais devem ter notado, mas então fui eu que não os notei, do que lhes peço desculpa).
Queria dizer-lhes apenas que lhes agradeço, do fundo do coração, as referências pessoais que me dirigiram. Quanto ao mais: creio que os quatro se enganaram na leitura que fizeram da minha decisão. Não sinto desânimo, nem vontade de abandonar. Cessar a actualização de um blogue não equivale necessariamente a esse estado de espírito.

"O Diabo" à solta

Destaques na edição de hoje de "O Diabo":
Um artigo de Francisco Moraes Sarmento intitulado "A religião nacional ou a teologia dos filósofos", e outro de Gonçalo Magalhães Collaço denominado "Subtilezas".
Como sabem, aprecio muito estes nossos publicistas.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

A eficiência, não a auto-satisfação

Num regime em que a representação se faz necessariamente através dos partidos políticos, compreende-se a preocupação de quem sente o imperativo de actuar na vida pública em ter um partido que eficazmente represente as suas ideias e traduza essa vontade de intervenção.
O caso dos nacionalistas, ou mais genericamente da Direita, não é, desse ponto de vista, diferente do das demais correntes políticas. Trata-se de encontrar um instrumento adequado, um meio apropriado. Os fins situam-se noutro plano.
Encarada a coisa assim pragmaticamente, é mais fácil perceber que a realização dessa preocupação tem que obedecer essencialmente às legis artis, às regras da boa técnica, que também as há nessa área do saber. Tem que se procurar a eficiência, não a auto-satisfação.
Percebe-se portanto que, neste momento, impõe-se erguer um partido político que seja a representação de um movimento, obviamente o mais vasto possível sob pena de se consagrar o fraccionismo institucional (e aí cada fracção quer naturalmente ter o seu).
Quanto à sua imagem perante a opinião pública, esse partido tem que surgir na arena política de forma a ser claramente identificável. Se for para se confundir com os outros, ser igual aos outros, ser mais um, não vale a pena. Tem que ser suficientemente diferente para se demarcar da oferta existente, tem que ser associado pelos consumidores a algumas ideias-força facilmente reconhecíveis, tem que agitar bandeiras que possam constituir sinais de presença de todos conhecidos.
Em suma, tem que ser diferente - porque a generalidade das pessoas está farto dos outros. Importa porém dizer, a todos os que até aqui dirão sem dúvida que estão de acordo, que não pode ser tão diferente que ninguém com ele se sinta identificado. Diferente, sim - sem dúvida. Mas as diferenças não podem ser daquelas que repugnem ao homem comum, daquelas que uma vez tornadas imagem de marca constituam obstáculo insuperável à aceitação do produto pela generalidade dos destinatários.
É fácil acontecer que algo seja tão diferente da norma... que consiga concitar sobre si a hostilidade de todas as pessoas normais. Não é isso certamente o que se deseja.
Como evitar esses abismos? Eu diria que, antes do mais, cada militante deve aprender a olhar para si com os olhos dos outros. É um exercício difícil, talvez. Mas necessário. De vez em quando temos que ser capazes de nos projectar para fora de nós próprios, dos nossos pessoalíssimos gostos, preferências e manias, e conseguir olhar para nós com os olhos dos outros, ver-nos como eles nos vêem, entender as visões, juízos e sentimentos que são despertados nos outros por tudo aquilo que fazemos e dizemos.
E não adianta dizer que o público é estúpido; nestas questões da vida política, como no mercado, o cliente tem sempre razão. Se só lhe oferecermos o que não gosta e não quer, somos nós que vamos à falência.

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Uma direita, que não a de VPV

Não basta proclamar que o sectarismo faz objectivamente o jogo dos nossos inimigos, impedindo a união das forças políticas nacionais, nem sublinhar o imperativo de agrupar todas as forças disponíveis para fazer face aos perigos que ameaçam a nossa cultura e a nossa civilização, nem, em suma, declarar-se frontalmente contra o espírito de capela.
Proclamar e declarar essas verdades é, pode-se dizer, um lugar comum. O problema é que muitos vão fazendo efectivamente o que por palavras reprovam. Cultivando a sua capelinha, consolidando seitas e grupúsculos, estimulando divisionismos, acentuando rivalidades mesquinhas, exacerbando antagonismos e inimizades quase sempre exclusivamente pessoais, vivendo mergulhados no caldo de cultura do intriguismo e da má língua.
Nesse clima, nada de sólido é possível construir. A minha defesa tem sido o isolamento, o afastamento, que inicialmente foi acidental, determinado por circunstâncias da vida, e a partir de certa altura passou a ser, resolutamente, um facto deliberado e conscientemente assumido. Quem não faz parte de coisa nenhuma, quem não é afectado por condicionantes da vida social, quem não tem grupo, loja ou tertúlia a que deva agradar, quem não alinhe em festas, encontros ou jantares - tem muito mais condições para dizer a verdade. Em contrapartida, se a disser também dificilmente sairá dessa condição de homem só. Mas creio firmemente que é preciso que alguém a assuma.
Para que venha a existir um verdadeiro movimento nacionalista vivo e presente na vida política portuguesa é necessário optar decididamente por um militantismo de terreno, de base, de longa duração. Renunciar em definitivo a partilhar as disputas, torneios, jogos florais e hábitos rituais da direita histórica, encartada. Escolher a defesa das camadas populares, que são as verdadeiramente ameaçadas pelo rolo compressor da globalização, pela insegurança, pela precariedade, pelas crises de toda a ordem, sejam económicas, morais, de identidade, de cultura, de civilização. Estruturar um verdadeiro "partido do povo", a partir de baixo, pode fazer-se se houver gente para o fazer. A direita que penso - ao mesmo tempo nacional, social e popular - constitui um projecto político exequível para o nosso tempo. Depende das pessoas, das vontades. "O mundo só tem o sentido que nós lhe dermos".

Quinta-feira, Julho 09, 2009

A opinião pública é a opinião que se publica?

Uma das queixas recorrentes entre a direita refere-se à sua constante subrepresentação, ou à sua total ausência, da opinião publicada. Também eu apresentei inúmeras vezes essa queixa, por se me afigurar bem real e constatável por qualquer observador. A essa verificação acrescentava ainda uma outra: por razões de ordem cultural, sociológica, histórica, etc., os grupos profissionais que detêm as chaves do poder mediático estão condicionados, formatados, segundo modelos que tornam muito difícil a modificação a breve prazo da situação apontada.
Para fácil compreensão, pense-se na imediata receptividade alcançada entre os meios ligados à comunicação social de massas por qualquer causa fracturante que se lhes apresente.
Por isso mesmo, na altura do Verão de 2003 em que me lancei na feitura deste blogue, encarei como uma oportunidade única as potencialidades oferecidas pela blogosfera. Esta última dava o que nos outros meios a direita não podia nem em sonhos ambicionar (por vezes nem pagando como publicidade se conseguia fazer sair nos media tradicionais um miserável texto expondo qualquer opinião que fosse considerada politicamente incorrecta sobre assuntos-chave, os mais diversos).
Consequentemente, apelei à mais ampla mobilização possível em torno desse novo meio de comunicação - que, não sendo ainda de massas, possui certamente em si a virtualidade de atingir directa e indirectamente, por efeito de multiplicação, ou por efeito cascata, camadas muito mais vastas e numericamente representativas do que uma análise superficial levaria a concluir.
Queria eu que todos aqueles que nas mais diversas circunstâncias se queixavam amargamente da impossibilidade de fazer ouvir a sua voz fizessem finalmente o exercício de tentar comunicar o que tivessem a dizer. Foi a fase "para a blogosfera, rapidamente e em força".
Usando da sinceridade que é exigível na hora de fazer contas, tem que dizer-se que houve efectivamente uma movimentação, nas variadas famílias direitistas, que foi possível de acompanhar por qualquer observador da nossa blogosfera. Durante bastante tempo brotaram por aí fora blogues como cogumelos, desde os mais banais aos mais extraordinários, representando toda a formidável panóplia das infinitas correntes em que se divide habitualmente a direita, a extrema-direita, e afins. Foram dezenas e dezenas, creio mesmo que não será exagero dizer centenas.
Quase todos foram de duração efémera, e a qualidade média não se recomenda. A verdade, cumpre reconhecer, é que os seus autores ou tinham muito pouco para dizer, ou não sabiam como o dizer, ou não sentiram que fosse necessário o esforço. E pouco ficou.
Não sei se deverá concluir-se que estamos perante um fracasso clamoroso; o que foi feito, permanece - e o tempo dirá se aquilo que ainda assim se fez com qualidade e mérito que valha criou ou não raízes, lançou ou não sementes, que venham um dia a permitir-nos congratular por esse movimento.
Mas que para já o resultado não se apresenta famoso, isso é verdade.